Na história recente dos EUA, 60 milhões de americanos viram o sonho da aposentadoria escorrer pelo ralo – ou boa parte dele. Em questão de meses, milhões de dólares poupados e investidos em fundos privados de previdência, conhecidos como 401(k), simplesmente evaporaram.

A maioria dos investidores se viu praticamente sem nada – ou com bem pouco do que pouparam. Aqueles que são jovens, ainda podem reconstruir o montante que perderam. Diferente daqueles que já têm 50 ou 60 anos. Nem se trabalharem o resto de suas vidas, até os 70 ou 80 anos, serão capazes de recuperar o dinheiro poupado ao longo de décadas.

E o mais curioso dessa situação é que a culpa nunca é das escolhas ruins dos gestores e assessores dos fundos, mas, sim, dos próprios investidores que sabiam do risco que estavam assumindo. Esses trabalhadores, além de terem de lidar com o peso objetivo dessas perdas, ainda sofrem as consequências psíquicas do futuro incerto que têm pela frente.

Nesses fundos, o empregador contribui parcialmente para a aposentadoria do empregado, enquanto esse trabalhador faz uma contribuição voluntária. Em troca, o governo concede uma dedução de impostos para o empregador até que o funcionário alcance 59,5 anos de idade. Algo interessante para as duas partes e que representaria um ótimo complemento de renda para os trabalhadores, que também se aposentariam pelo sistema público de assistência. Pena que, mal gerenciado pelos agentes do mercado, esse tipo de investimento se mostrou uma verdadeira catástrofe.

Que tipo de plano de previdência pode ser tão ruim assim?

Mesmo diante de perdas gigantescas bem no momento em que muitos mais precisariam do dinheiro, David Ray, diretor de um dos principais fundos de previdência privada dos Estados Unidos, afirma que esses fundos são a melhor opção para aqueles que desejam assegurar melhores aposentadorias. Ele atribui o cenário de perdas severas aos impactos generalizados da crise econômica que atingiu todo o mercado, e não somente esses fundos.

Ray recomenda que todos façam suas próprias escolhas quanto a investimentos e aconselha que elas sejam diversificadas, incluindo aplicações em renda fixa. “Isso não é culpa dos fundos. Todo mercado tem altos e baixos. Essa pessoas aceitaram o risco de obterem diferentes resultados”, declarou à época.

Segundo Brooks Hamilton, especialista em desenhar fundos privados de aposentadoria para grandes companhias americanas, a ineficiência do sistema público de previdência assusta muito as pessoas, por isso grande parte delas busca a segurança desses fundos privados. Essa grande demanda de investidores novatos e despreparados tornou-se um prato cheio para o mercado vender centenas de fundos privados de investimento como se fossem verdadeiras minas de ouro.

O problema é que essa categoria de investimento tornou-se tão barata, que muitos deixaram de diversificar seu portfólio. E segundo Hamilton, o desempenho desses fundos é, sendo bem honesto – ele destaca, é medíocre, contendo uma lista de fundos de investimento que nem deveriam estar ali.

Taxas ocultas tragam o dinheiro dos trabalhadores

Não bastasse a má gestão desses fundos, os operadores viram neles oportunidade para ganhar muito dinheiro com taxas e mais taxas que nem os próprios administradores conseguem (ou querem) explicar em linguagem simples. Sequer nos contratos assinados por milhões de americanos tais taxas são apresentadas com clareza. Parte delas figura na primeira página dos documentos, mas uma dezena de outras fica escondida dos clientes.

É o que relata George Miller, deputado e representante de uma secretaria de educação e trabalho no estado da Califórnia. Miller ainda apontou que mais da metade dos rendimentos de um investimento de 30 anos pode ser engolido por essas taxas. Nem assim, foi possível barrar a ganância desses fundos. Ele sequer conseguiu que os operadores fossem obrigados a informar com transparência a infinidade de taxas que cobram de seus clientes. Bastou ele se pronunciar a respeito disso para assistir à fúria do mercado financeiro contra ele.

Tão ruim quanto os piores traders

Um estudo feito pela rede americana de notícias especializada em mercado financeiro, CNBC, constatou que, nos últimos 15 anos, 91% de todos os fundos de investimentos tiveram performances abaixo dos principais índices, abaixo até de algumas modalidades de renda fixa. Note que é o mesmo percentual alcançado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) no Brasil em uma pesquisa sobre a performance em especulação financeira e em DayTrading.

Em uma entrevista, o mais bem-sucedido investidor do mundo Warren Buffett chegou a dizer que, se um macaco atirasse pedras em um quadro em que várias ações estivessem listadas, a performance deste macaco seria melhor do que a de 80% dos gestores de fundos da atualidade. Prova clara de que delegar o seu futuro a terceiros tem enormes chances de ser um grande erro.

 

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