Greg Smith foi vice-presidente do departamento de Trading do banco americano Goldman Sachs. Construiu uma longa carreira, indo de estagiário a VP, ao longo de 12 anos. Até o dia em que ele pediu para sair em 2012.

Sim, saiu e escreveu um livro intitulado “Por que saí do Goldman Sachs?”. Nele, relatou inúmeras situações de atuação antiética dos players institucionais, muitas até em que eles apostavam e operavam contra seus próprios clientes.

Demissão dramática

Smith foi ousado ao se demitir. Sem comunicar a ninguém do banco sobre sua decisão, ele publicou uma carta aberta em uma página do jornal The New York Times, expondo que o banco adotava práticas condenáveis – isso pouco mais de três anos após a crise financeira de 2008.

“Integridade? Está erodindo”, escreveu ele no artigo. “O ambiente agora é tão tóxico e destrutivo como eu nunca havia visto antes.” E emendou dizendo que se sentia enojado da forma como as pessoas falavam em “ferrar” com os clientes.

O Goldman é uma das instituições financeiras mais admiradas dos EUA porque é uma das mais lucrativas e mais bem conectadas politicamente no país. Conseguir um emprego lá dá muito trabalho e, em geral, quem deixa o banco não faz nenhum alarde e pouco fala sobre como é trabalhar ali.

Ray recomenda que todos façam suas próprias escolhas quanto a investimentos e aconselha que elas sejam diversificadas, incluindo aplicações em renda fixa. “Isso não é culpa dos fundos. Todo mercado tem altos e baixos. Essa pessoas aceitaram o risco de obterem diferentes resultados”, declarou à época.

Segundo Brooks Hamilton, especialista em desenhar fundos privados de aposentadoria para grandes companhias americanas, a ineficiência do sistema público de previdência assusta muito as pessoas, por isso grande parte delas busca a segurança desses fundos privados. Essa grande demanda de investidores novatos e despreparados tornou-se um prato cheio para o mercado vender centenas de fundos privados de investimento como se fossem verdadeiras minas de ouro.

O problema é que essa categoria de investimento tornou-se tão barata, que muitos deixaram de diversificar seu portfólio. E segundo Hamilton, o desempenho desses fundos é, sendo bem honesto – ele destaca, é medíocre, contendo uma lista de fundos de investimento que nem deveriam estar ali.

Gestores descompromissados

Por mais paradoxal que possa parecer, Smith tem enorme apreço pelo banco, já que anos de sua vida foram dedicados à instituição. Mas ele nota que hoje os novos gestores não focam nos melhores interesses do banco nem de seus clientes.

Segundo Smith, enquanto operava em nome de seus clientes, o banco aprendia a operar seu próprio dinheiro e acabava apostando contra seus próprios contratantes. Isso representou para Smith uma mudança drástica de filosofia da empresa, saindo do “como fazemos o que o cliente deseja” para algo como “sabemos fazer dinheiro levando vantagem sobre nossos clientes”.

Não bastasse isso, a instituição começou a promover internamente a venda de complexos produtos financeiros, repletos de riscos desconhecidos e taxas escondidas. A oferta de generosas comissões fazia todos se movimentarem. O alvo dos players institucionais eram fundos de previdência de estados pobres, associações filantrópicas e de professores, entre outros, desde que fossem geridos por pessoas desprovidas de conhecimento de mercado.

“Esses produtos são descritos como capazes de atender todas as necessidades dos investidores, mas o que eles não abem é que estão pagando de antemão uma fortuna para o banco”, explicou Smith. O problema para o ex-funcionário é que o banco não fala de jeito nenhum que aquele tipo de produto custa dois ou três milhões de dólares para aqueles gestores. “De tão complexos que são, seria necessário ter um PhD em física ou engenharia para entender tais opções de investimento.”

A regra de ouro do Goldman

O mapa da mina para o Goldman Sachs é ter clientes nada sofisticados – ignorantes até, poderia ser o termo. “O modo mais rápido de se fazer dinheiro em Wall Street, é vender produtos muito sofisticados para clientes ignorantes”, declarou Smith em entrevista concedida ao programa de TV 60 Minutes, um dos mais reconhecidos nos Estados Unidos.

Investigações foram conduzidas a respeito de produtos desse tipo e outras questões envolvendo o banco. Representantes chamados a depor afirmaram que a instituição não age da mesma forma quando opera para seus clientes e quando atua como conselheira de investimentos. Essa distinção de papéis não é exatamente no que os clientes acreditam quando contratam bancos com a envergadura de um Goldman Sachs ou um Stanley Morgan, outro banco americano de grande renome.

Em uma rápida passagem pelo escritório do Goldman em Londres, Smith presenciou colegas chamarem os clientes de marionetes – só para se entender a que ponto chegou a cultura de manipulação dentro da empresa. Smith ressaltou que “o termo marionete é aplicável a alguém que você pode manipular ou a alguém visto como um idiota”.

Hoje, Smith tem dificuldade para se recolocar no mercado, em especial por causa da influência dos bancos. Mesmo ganhando muito dinheiro no Goldman, Smith saiu por acreditar que essa era a coisa certa a ser feita: “Eu saí do jogo porque as coisas foram mais longe do que eu acredito que é certo. Eu simplesmente não consegui ficar calado”. Ele paga o preço por ter falado o que ninguém antes teve a coragem de dizer.

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