E você nem se dá conta disso. Se você é um trader ou um passivo acionista de fundo de investimento de previdência privada, não importa. Manipulações de mercado te atingem de alguma maneira, pode ter certeza. Então, é melhor você conhecer o jogo por trás do grande jogo para deixar de ser um cordeiro em meio a lobos.

Diversos especialistas – tanto traders como grandes investidores, jornalistas e especialistas em tecnologia – já detectaram muitas das manipulações que ocorrem no mercado.  Alguns foram além: provaram que pode ter sempre alguém se dando bem em cima de você e da sua falta de conhecimento.

Nisso o jornalista e economista norte-americano Michael Lewis é expert. Ele se especializou em divulgar os bastidores do mercado financeiro em livros que se tornaram best-sellers ao escancarar fraudes e falcatruas. Um deles se chama Flash Boys – A Wall Street Revolt, publicado em 2015 e disponível em português. Nele, Lewis conta como um grupo de traders e peritos em tecnologia se uniu para descobrir como agiam robôs de alta frequência que geravam lucros astronômicos para grandes insiders do mercado americano.

Compreender o que dá ou não dá para fazer com o capital que você tem em mãos passa por analisar e executar ações de alavancagem, gerenciamento de posição e otimização de operação. Para usar tudo isso em suas tomadas de decisão, você precisa conhecer e usar as ferramentas de análise apropriadas para cada mercado. De exemplo em exemplo, fica mais fácil você entender como cuidar de todos esses aspectos enquanto opera.

A maioria dos profissionais, ou por influência de professores ou por pura falta de conhecimento, começam pelo índice futuro. Só mais tarde, depois de adquirir um pouco mais de experiência, começam a buscar outras alternativas para operar.

Por um jogo mais justo

O canadense Brad Katsuyama, que antes era o líder de um grupo de 25 traders em Nova York pelo RBC (Royal Bank of Canada), decidiu fundar a IEX (Investors Exchange), uma nova mesa de negociação com sede nos Estados Unidos com a missão de oferecer oportunidades de acesso a ativos de maneira mais justa e igualitária para tradicionais investidores. Tudo começou porque Katsuyama não se conformava com o fato de seu time do banco não conseguir executar integralmente ordens de compra em Wall Street, prejudicando seus clientes.

Sempre que eles se preparavam para comprar um grande lote de ações, cada parte desse grande lote disponível em diferentes bolsas americanas, eles enviavam as ordens e apenas parte delas era executada no preço que estavam dispostos a pagar. Às vezes, os blocos de ações que desejavam comprar simplesmente desapareciam da tela, todos eles, indicando subitamente que elas não estavam mais à venda.

Curiosamente, segundos depois, os lotes que a equipe de Katsuyama não conseguia comprar eram disponibilizados por preços mais altos. Para concluir suas transações, o canadense e seus traders acabavam pagando mais caro, gerando enormes perdas de oportunidades de ganhos com uma frequência que o incomodava muito.

Inconformado com a repetição dessa situação – foram dois anos se dando mal em suas operações, o trader conversou com diversos outros players e descobriu que muitos vivenciavam a mesma circunstância em suas rotinas. Katsuyama decidiu investigar o porquê disso. “O mercado que vejo em minha tela é uma ilusão”, ele dizia.  “Não é certo ver pessoas que investem suas economias e suas aposentadorias serem massacradas todos os dias.”

Muitas vezes, quando o trader está no início de sua caminhada e quer treinar sem arriscar muito de seu capital, pode buscar corretoras de CFDs. Nelas há a chance de operar micro lotes. Os micro lotes são lotes muito pequenos, de centavos, muitas vezes.

Enquanto no Brasil você só poderia comprar 100 ações de Petrobrás em um bloco, em uma corretora de CFD você pode comprar 0,1 lote desse mesmo ativo. Essa é uma excelente oportunidade para quem quer começar já sentindo o “calor” do mercado, mas não tem ou não quer arriscar muito capital.

O mundo é dos super computadores

Depois de investigarem “n” teorias, desde o fato de que a tecnologia de conexão do banco com os mercados podia ser lenta até o fato de que o problema ocorria porque as ordens chegavam só depois nos mercados mais distantes da base deles, o grupo descobriu que robôs de alta performance conseguiam agir milésimos de segundos à frente de qualquer um deles quando enviavam uma ordem.

Não se tratava de humanos. Eram máquinas super poderosas realizando negociações automatizadas, passando todos pra trás em benefício de poucos. A velocidade desses computadores para realizar uma compra ou uma venda era 100 vezes maior do que a de um piscar de olhos.

Segundo o jornalista Lewis, essas máquinas identificam o desejo de se negociar um ativo ao detectarem uma primeira ordem e agem de forma antecipada às demais ordens que vêm na sequência, comprando pelo preço justo e revendendo por valor mais alto. O sobrepreço aplicado é algo em torno de um ou dois centavos de dólar, mais do que suficiente para alcançar bilhões de dólares de ganhos diariamente em Wall Street. Os interessados nisso? Bolsas de valores, corretoras, grandes bancos e as empresas que controlam robôs de alta frequência.

Outro bom exemplo é o de alguns traders que operam DI futuro no Brasil ou operam títulos do tesouro no Brasil ou nos EUA. Esses são ativos que, em função da sua “estrutura” e dinâmica, só podem se operados com uma grande quantidade de capital investido. Eles projetam enormes lucros, mas podem também ocasionar perdas gigantes e assustadoras.

Um último exemplo mais viável seria o mercado de opções. Neste mercado, principalmente nos EUA onde há liquidez absurdamente alta, você consegue se expor (com perdas totalmente controladas e limitadas), com potenciais de ganhos altíssimos (em muitos casos chegando a 1000% ou até mais), mas podendo começar com tão pouco como alguns centavos para comprar Puts e Calls, “longe do dinheiro” e no vencimento correto.

Isso só pode ser ilegal!

Você deve estar pensando: “peraí, isso deve ser ilegal!”. Não, não é. Por mais louco que isso pareça. E isso é o mais chocante nessa história. Ao se ver em meio a tamanha manipulação, Katsuyama avançou no propósito de criar uma nova empresa em que esse jogo sujo não fosse a tônica. Assim, a IEX atua hoje em benefício de seus clientes de forma a atenuar as vantagens que esses players desleais obtém ao lançar mão desse tipo de tecnologia ultra rápida.

A empresa faz frente à velocidade dos super computadores reduzindo a sua própria velocidade: a IEX envia primeiro suas ordens de compra ou venda para os mercados mais distantes fisicamente de sua base. Depois, envia as ordens para as bolsas mais próximas. Assim, todas as ordens chegam no mesmo horário em todas as bolsas, de modo que os robôs de alta frequência nada podem fazer. Além disso, a empresa instalou espécies de “lombadas” para frear o ganho de velocidade de qualquer super computador sobre aos negócios deles.

Para ganhar clientes, a IEX decidiu vender confiança e transparência num mercado cheio de manipulações e fraudes. É bom você já ir se acostumando com isso. O mercado está cheio de histórias assim.

A empresa faz frente à velocidade dos super computadores reduzindo a sua própria velocidade: a IEX envia primeiro suas ordens de compra ou venda para os mercados mais distantes fisicamente de sua base. Depois, envia as ordens para as bolsas mais próximas. Assim, todas as ordens chegam no mesmo horário em todas as bolsas, de modo que os robôs de alta frequência nada podem fazer. Além disso, a empresa instalou espécies de “lombadas” para frear o ganho de velocidade de qualquer super computador sobre aos negócios deles.

Para ganhar clientes, a IEX decidiu vender confiança e transparência num mercado cheio de manipulações e fraudes. É bom você já ir se acostumando com isso. O mercado está cheio de histórias assim.

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