Jim J. Cramer é uma famosa personalidade da televisão americana – e também foi um hábil manipulador do mercado financeiro. Atributos não lhe faltam: ele é apresentador do MadMoney, na rede CNBC; é co-fundador do site de notícias e análises financeiras TheStreet.com; e é autor de diversos best-sellers (o mais recente deles é de 2013: Get Rich Carefully, disponível somente em inglês). Além disso, Cramer foi gerente e fundador de um hedge fund, que é um fundo multimercado criado para limitar os riscos em busca da maior rentabilidade possível, qualquer que seja a condição do mercado financeiro.

E era nesse tipo de fundo de investimento que ele usava toda a sua habilidade para manipular as variáveis do mercado a favor de suas operações. Em uma entrevista ao jornalista Aaron Task, Cramer admitiu que, quando operava seu hedge fund, ele “criava” uma porção de atividades para controlar os preços. “E eu nem precisava de muito dinheiro para fazer isso”, lembrou.

Ou seja: se Cramer estava vendido em sua posição, ele precisava que o mercado caísse. Então, ele dava um jeito e fazia tudo acontecer como ele desejava. Do mesmo modo, quando o gestor estava comprado, ele adquiria alguns milhares de dólares de algumas ações e garantia que elas subissem. Numa situação como essa última, ele talvez comprometesse em torno de 5 milhões de dólares em capital para conseguir a resposta desejada. Mas o objetivo seria alcançado: alterar o mercado de forma conveniente para seu fundo.

Mudança de tamanho de mercado

O cenário mudou. O mercado cresceu e talvez hoje Cramer seria demandado em algo em torno de 10 milhões de dólares para conseguir as mesmas respostas. “Mas esse é um jogo divertido”, afirma ele sem constrangimento algum. “É um jogo muito lucrativo.”

O hábil especulador explica que um grande player, como ele era, pode provocar o movimento que quiser no mercado. Pode orquestrar um movimento para cima e derrubá-lo muito rapidamente, por exemplo. Esse tipo de ação cria um sentimento muito negativo (desespero extremo). O movimento contrário, mercado de baixa subitamente jogado cima, cria um sentimento muito positivo (euforia). 

Como pode ser que os demais players levem um dia inteiro para analisar esse tipo de movimento, essa é uma estratégia que vale muito a pena – pra quem a executa, claro! “Eu encorajaria todos os operadores de fundos a fazer isso porque é legal [em termos jurídicos]. É um modo muito rápido de lucrar e é também muito satisfatório.” 

Certeza que você vai se perguntar: como um jogo de cartas marcadas como esse pode ser juridicamente legal? Mas é. Tanto que Cramer emenda: “Ninguém no mundo admitiria isso, mas eu não me importo em admitir”.

Foto de divulgação: Jim Cramer, para o site da CNBC.

Questão de sobrevivência

Os hedge funds tanto compram como vendem ativos. Eles são diferentes dos fundos de investimentos mais habituais, que apenas compram para acumular patrimônio e desfrutar de rendimentos advindos de uma carteira equilibrada. Essa é uma diferença vital.

“Quando os seus lucros em um hedge fund estão em jogo, você tem de controlar o mercado”, diz o estrategista. Ou seja: quando é do seu interesse, você não pode deixar o mercado se erguer ou desmoronar. Para Cramer, nesse jogo de força, vale usar todo o poder de fogo disponível para atingir um objetivo.

Fazer contato com várias pessoas, de forma planejada, e criar a impressão de que determinadas ações estão caindo é algo que nenhum grande player deveria fazer – isso seria uma contravenção penal. Mas, de qualquer forma, Cramer confessa que até isso os grandes players fazem, “uma vez que os órgãos reguladores não entendem de nada”.

Essa é uma das atitudes que ele sabe que é ilegal, mas que um hedge fund tem de fazer para salvar a própria pele. Essa conduta é bem diferente da manipulação de preços forçada por negociações de blocos enormes de ordens que grandes players lançam no mercado. Essas grandes entradas podem ser articuladas entre players e até pulverizadas sorrateiramente para disfarçar suas origens. Seu efeito é levar a todos, como manada, para o lado que os “donos do dinheiro” desejam.

Segundo Cramer, há uma outra situação comum que impele os players a lançar mão de manipulações de mercado: quando um administrador se vê numa situação crítica – talvez com a empresa endividada porque as ações estão caindo –, ele vai “fomentar” um cenário a seu favor por uma questão de sobrevivência. Cramer declara que, se ele estivesse na posição dessas pessoas, ele faria o mesmo, ainda que baseasse suas atitudes na disseminação proposital de boatos.

A importância de pesquisar o sentimento do mercado

Pode ser que para pessoas que estão sob pressão, pesquisar o sentimento do mercado não seja grande coisa. Mas esse dado que muitos desprezam é a chave para entender o ambiente financeiro. Ao explicar a sua forma de operar, Cramer conta que primeiro fazia contato com algumas pessoas e, então, definia suas ofertas. Simples assim.

Se ele sabia que determinado player estava comprando, ele ia até a posição dele e “arrebentava” com a estratégia dele – o termo que Cramer usa é algo bem próximo disso no inglês. Era comum ele operar certas ações só para derrubá-las. Havia ocasiões que isso podia lhe custar algo em torno de 15 a 20 milhões de dólares, é verdade, mas se era o que ele tinha de fazer, ele fazia.

Em geral, quando Cramer agia assim, para ele, era fabuloso. Ele enganava a todos, forjando sentimentos de mercado ao sabor de sua conveniência. Tanto que ele cita que valia até ligar para um repórter ou outro e convencê-los de qualquer coisa que ele precisasse que fosse espalhada.

Esse tipo de comportamento é algo que um grande player adota diariamente. Quem não está disposto a agir assim, segundo Cramer, nem deve entrar nesse jogo.

 Um exemplo real: manipulação da Apple

Um ativo muito simples de se manipular, na opinião de Cramer, é a Apple. Basta espalhar um boato de que a empresa não está apta a lançar nenhuma nova versão desse ou daquele equipamento. Pronto. O sentimento do mercado muda imediatamente.

Segundo o player, quem escreve sobre a Apple está a todo momento procurando uma boa história para publicar. Basta fingir que algo é verdade, fazer chegar nos jornalistas certos e bingo! Para tornar esse tipo de manipulação mais crível, Cramer explica que basta dizer para o repórter ou o articulista que você teve contato com uma fonte de dentro da empresa, um contato quente.

Na hipótese de Cramer precisar vender Apple, certamente ele trabalharia duro para forjar uma situação que o permitisse fazer uma venda perfeita. Do mesmo modo, há também meios muito eficazes de fazer uma ação despencar. E espalhar boatos ou mentiras que criam um sentimento negativo de mercado é um deles.

Nesse tipo de cenário, Cramer admite que faz parte do jogo aparentar que algo está acontecendo ou que vai acontecer, dentro de dias ou nas próximas semanas. Basta combinar compras, opções de vendas ou montagens de posições com outros grandes players como o UBS ou o JP Morgan para deixar tudo mais convincente. Até corretoras desconhecidas podem ser usadas para forjar o teatro dos manipuladores do mercado. Isso é o suficiente para colocar todos os pequenos players em alerta.

É assim que tudo acontece nos bastidores do mercado. E a maioria das pessoas nem faz ideia disso. As corretoras, os grandes players, os grandes bancos, todos têm ligações uns com os outros. Vazamentos de informações para a imprensa são comuns – em especial as falsas. Até que se descubra que são mentiras, muita coisa já aconteceu – coisas que os interessados queriam que acontecessem, óbvio.

O mercado é o que é – e é bom você saber disso, desde o início. Entender que é assim que as coisas funcionam é até mais importante do que dominar qualquer fundamento.

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