Medo é o único padrão de sentimento que é inato. Logo, você tem medo, nasceu com ele. Trata-se de um mecanismo de proteção essencial à sobrevivência. Esse assunto rende tanto em relação ao mercado financeiro que o dividimos em duas reportagens. Nesta primeira parte, vamos te ensinar a identificar os medos e o que eles provocam em você. Na segunda reportagem, a gente explora mais os problemas que o medo te traz e algumas estratégias e exercícios para aplacá-lo.

Como é impossível arrancar isso de dentro de você, o caminho é mesmo aprender a dominar o medo para que ele não te domine. Um bom trader sabe o que está fazendo. Sempre. E, com isso, não dá muito espaço para esse sentimento. Se o medo aparece, o profissional bem treinado o identifica e lida com ele de forma saudável.

E cabe aqui uma colocação: medo não é diferente de respeito. Eles andam juntos. Você só respeita o que você teme. Por exemplo, você respeita a sua namorada porque você tem medo de perdê-la. Você respeita os seus pais porque tem medo de decepcioná-los.

O medo mais instintivo, que vem desde o tempo das cavernas e da origem do homem, é o medo de ser abandonado ou rejeitado. O indivíduo excluído de um grupo se torna mais frágil porque fica sozinho. Não tem a ajuda dos demais para se proteger, para encontrar comida etc. Esse sentimento provoca uma grande sensação de impotência.

Olhe para a sua vida

Quem nunca se sentiu rejeitado? Esse medo genuíno pode já ter aparecido na sua vida de várias formas. Vamos supor que na escola você sofria bullying. Dia sim e outro também, você convivia com um monte de amigos te zoando, numa nítida demonstração de rejeição à sua presença naquele grupo. Diante disso, você desenvolveu um sentimento de medo que ficou associado a toda situação em que você tem de fazer parte de um novo grupo. Essa percepção pode ser dar de maneira consciente ou inconsciente.

Outra situação: você pode ter vivido um outro tipo de trauma, como o de não ter sido aprovado em um processo seletivo para uma vaga de emprego que você queria muito. Então, em decorrência disso, você para de se inscrever em processos seletivos. Você para de tentar. Tudo pelo medo de ser rejeitado de novo.

Se você não identifica esses pontos críticos em sua vida e não dá um novo significado a essas passagens, você pode desenvolver outros processos provenientes disso, como quadros de depressão ou de muita ansiedade.

Qual é a sua escolha?

Se você vivencia ou vivenciou situações como essas, em alguma medida, no mercado financeiro esse medo de ser abandonado e excluído (por errar, por exemplo), pode te bloquear e você sequer vai tentar operar. Entre tentar, falhar e ser rejeitado, você nem se arrisca para manter a dúvida na cabeça daqueles que te observam.

Mas digamos que você decida operar, apesar do medo que te domina. Uma de suas motivações – além daquelas que conhecemos, que é ganhar dinheiro, ter uma melhor qualidade de vida etc. – pode ser provar alguma coisa para alguém. Quem age assim está buscando ser aceito, está buscando reconhecimento. Por mais maluco que pareça, a quem queria provar algo para alguém que já nem está mais vivo… O problema é que agir com esse tipo de motivação vai te gerar muita ansiedade. E ansiedade, se não for dosada, controlada, vai te fazer errar muito mais.

Atenção à sua dose de ansiedade

Todo ser humano sente ansiedade. Ela é um alerta em relação a algo que pode acontecer no futuro e que merece a sua atenção. A ansiedade surge quando seu cérebro relaciona uma dada situação com algum resultado negativo do passado. 

Para te precaver, a ansiedade vem e te prepara para o pior, tomando como base uma experiência anterior ruim. Na maioria dos casos, aquele cenário nem chega a acontecer, mas o seu cérebro fica maquinando naquilo como uma forma de autoproteção.

Quando isso ocorre de forma esporádica, é um mero mecanismo de defesa. Não precisa se preocupar. O problema é quando essa se torna a tônica do seu dia a dia. A ansiedade de longo prazo, sustentada, é perigosa porque faz seu cérebro gastar tempo com o desenho de situações (muitas não reais), tudo baseado num padrão anterior pré-estabelecido (e que pode nem voltar a acontecer). 

Essa tentativa do seu cérebro de antecipar o futuro, no desejo genuíno de te proteger e evitar que coisas desagradáveis aconteçam, é algo que pode te sabotar no mercado financeiro e te gerar enormes prejuízos – caso você não controle a dose disso.  

Tá nervoso? Não precisa ir surfar

Se você se vê na frente do gráfico, fazendo a leitura do mercado com base no que você estudou (direito), mas fica muito nervoso, não quer dizer que é hora de largar tudo e ir surfar. É hora de encarar e controlar esse nervosismo. O primeiro passo é entender a origem dele.

Pode reparar como esse nervosismo que você sente vem do medo de errar ou do medo de perder – um está muito conectado ao outro já que, em essência, são medos. É tanto medo que você fica na dúvida: “Entro ou não agora na operação?”. E não entra. Ou então, de tão nervoso e ansioso que está, você entra de forma antecipada na operação, sem aguardar o contexto certo. Nesse momento, seu medo é o do mercado evoluir e você perder a chance de ganhar dinheiro. Esse é o famoso FOMO: Fear Of Missing Opportunity (Medo da Oportunidade Perdida).

Esses medos de perder, errar ou não ganhar vêm todos daquele sentimento genuíno de rejeição que o ser humano abomina. Afinal, se você entrar, errar e perder, vão te julgar. Se você não entrar, não vai perder, mas também não vai ganhar. Cedo ou tarde, você vai ouvir a clássica frase (daquele seu primo chato, que não tenta nada de novo na vida): “Bem que eu te avisei!”.

Ciente de todo esse cenário que envolve emoções, sentimentos e comportamentos, você consegue agir para melhorar as suas formas de interação e reação no seu cotidiano de trader. O caminho é esse. Sem isso, corre o risco de ficar muito tempo na conta demo, treinando, treinando e treinando, mas sem coragem para alçar seu voo solo de verdade. A gente sabe que não é isso que você quer. Curtiu esta reportagem? Acesse aqui (em breve!) a segunda parte dela, com várias outras recomendações sobre como você pode domar os seus medos.

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